EUA OU CHINA?

9 de Junho, 2017

No final da passada semana integrei uma delegação restrita de Eurodeputados num encontro transatlântico de dois dias com Congressistas Americanos, que decorreu em Malta e no qual se debateram as relações transatlânticas e a sua influência no cenário mundial actual.

Este é um encontro regular que se integra no âmbito da relação entre os responsáveis políticos do Parlamento Europeu e do Congresso dos Estados Unidos da América, mas esta foi uma sessão especial por decorrer numa altura em que há preocupantes sinais de afastamento pelos dois blocos do Atlântico que é necessário inverter. São disso exemplo a estagnação nas negociações do TTIP (acordo de comércio e de investimento que se encontra em negociações entre a Comissão Europeia e a administração americana), a desistência dos EUA do acordo climático de Paris, a tensão entre os governantes Europeus e Americano (não passaram despercebidos os não cumprimentos de mão ou os demasiado veementes, bem como os empurrões para se ficar na primeira linha dos fotógrafos), ou, até mesmo, o não recente desinvestimento Americano na Base das Lajes. A firmeza das nossas posições não nos deve conduzir ao afastamento, pelo que o diálogo entre ambas as partes é essencial e, neste âmbito, a acção dos parlamentares europeus e americanos é crucial.

 Neste encontro expressei que é fundamental que os legisladores europeus e americanos dêem um claro sinal de que o centro de decisão mundial deve ser transatlântico, sob pena de assistirmos a uma reversão dos padrões sociais ocidentais. Perante as recentes reversões das políticas americanas, a China está a assumir uma liderança que não é desejável. Têm sido os países ocidentais os responsáveis pela harmonização ascendente da protecção dos cidadãos, quer no que respeita ao modelo social, que no que concerne à segurança e defesa, e a China não nos tem dado garantias de ser um parceiro defensor das causas sociais.

Donald Trump tem de prestar a devida atenção aos avisos das instituições e dos governantes europeus. Jean-Claude Juncker e Donald Tusk adiantaram que a relação com a China se torna cada vez mais importante, dado que os EUA se estão a desvincular dos laços internacionais. O Governo de Portugal estabelece contactos com a China para a criação de uma plataforma de investigação nas Lajes, fruto da redução do contingente militar naquela Base. Manifestei aos Congressistas Americanos que os governantes europeus estão a fazer o que lhes compete na defesa dos interesses dos seus povos, mas não nos podemos esquecer de que o fazem porque os EUA lhes estão a virar as costas. Haja abertura dos EUA à União Europeia e ainda vamos a tempo de impedir a escalada mundial chinesa.

Realcei que, ao invés de se iludirem as pessoas com políticas populistas associadas a extremismos que estão a minar a confiança política entre a UE e os EUA, há que se centrar as políticas nas pessoas. Exemplifiquei com a política isolacionista da administração de Donald Trump, centrada em objectivos económicos totalmente desfasados da realidade e que põem em causa a sustentabilidade ambiental, as potencialidades de criação de novos empregos e, consequentemente, a prosperidade. O TTIP não pretende ser nem deve ser encarado como um acordo de comércio livre, mas essencialmente como um acordo de investimento global que gere emprego e riqueza. A redução das emissões de carbono, para além de um desígnio pela manutenção do nosso planeta, integra-se numa revolução tecnológica e do mundo do emprego, que cada vez passa menos pela exploração do carvão e do petróleo, mas pelo desenvolvimento de uma economia verde.

Os resultados desta reunião foram francamente positivos. Na declaração conjunta assinada no final do encontro, ambas as partes afirmam privilegiar as relações transatlânticas, sendo necessário encorajar os respectivos órgãos executivos a encetarem progressos na cooperação bilateral. O líder da delegação Americana, na minha interpelação sobre a Base das Lajes, respondeu-me estarem a fazer pressão para que haja um reforço do posicionamento militar americano. Não obstante o interesse nessa posição, constitui uma “mão cheia de nada”. Sem dúvida que prefiro a relação transatlântica, mas, como muito bem disse a Chanceler Alemã, “nós, europeus, temos verdadeiramente de tomar o nosso destino em mãos”, e a China não o menosprezará.

 

Sofia Ribeiro

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