A LIBERDADE E A EUROPA

30 de Abril, 2019

A transição democrática em Portugal e a sua integração Europeia são processos directamente relacionados, que muitas vezes passam despercebidos aos olhares invocadores do legado de liberdade que a revolução dos cravos nos trouxe. Simplesmente, sem o 25 de Abril de 1974 não nos teria sido possível aderirmos à então CEE, mas o processo de adesão também contribuiu para consolidar o regime democrático do nosso país. Falar de Abril, em Português é, assim, também falar de Europa, ontem, hoje e amanhã. De uma integração colonialista ultramarina, transitámos para uma integração paritária europeia, sabendo que não podíamos ficar confinados ao isolacionismo, mas visando potenciar a nossa dimensão internacional. Num processo que teve início com a busca de reconhecimento, pela Europa, da transição Portuguesa do regime autoritário para o regime democrático, com a Inglaterra a líderar, demonstrámos não somente partilhar dos ideais e objectivos Europeus, como evidenciámos a importância da adesão à Europa para a consolidação da democracia em Portugal, em que a estratégia euro-atlântica foi fundamental para a nossa afirmação num regime socialista-democrata e não socialista-comunista. Em apenas quatro anos conseguimos a abertura formal das negociações para a entrada na CEE, e decorrida cerca de uma década da revolução portuguesa passámos a integrar a Europa dos doze, num processo que veio contribuir significativamente para a melhoria das nossas condições de vida. Em 1974, fizemos uma revolução exemplar no Mundo moderno, sem mortes, sem sofrimento popular. Olhemos para a Venezuela de hoje e veremos a antítese do modelo revolucionário português, ali também sob a influência do multilateralismo em que se destaca a relevância europeia. A nossa revolução não foi uma revolução qualquer, foi a revolução dos cravos, vista de forma poética pelos nossos congéneres europeus e, conjuntamente com a transição para a democracia parlamentar pela Espanha, marcou uma transição democrática à escala europeia. Sedimentada que está tal transição, questionamos hoje os legados de Abril e Europeu, num processo salutar apenas possível quando consolidada a democracia. Mas aproximamo-nos perigosamente de novos regimes totalitaristas acompanhados pelo fortalecimento do extremismo político, hoje marcados por ataques às liberdades de imprensa e do pensamento, pelo condicionamento judicial, bem no seio da União Europeia. A corrupção, o nepotismo e estratagemas de favorecimento político estão a minar a confiança dos Europeus. Lá, como cá, questionamos este status quo que mina o sentimento de equidade entre os cidadãos. O perigo espreita quando se transita para o questionamento do próprio regime democrático e plural que conquistámos, em Portugal e na Europa. Urge um olhar mais atento para uma classe média trabalhadora, que paga os seus impostos, cumpre com as suas obrigações e sonha ter condições de progresso social fruto do seu esforço. Foi este o sonho da revolução dos cravos, é este o sonho da integração europeia.

 

Sofia Ribeiro

sofia.ribeiro@europarl.europa.eu

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